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O sentido genuíno do trabalho

O sentido genuíno do trabalho

Um dos problemas mais “espinhosos” da actualidade é a conciliação entre trabalho e família. Parece um dilema profundo de difícil resolução.

Para as mulheres esse dilema pode-se expressar mais ou menos assim: “Ou trabalhas ou tens filhos. Ou te dedicas à tua carreira profissional ou cuidas do teu lar”.

Para os homens o mesmo dilema costuma ter outras “tonalidades”: “Ter filhos agora complica a nossa carreira profissional. Isso seria um transtorno para o nosso casamento. Quando tudo estiver estável economicamente, então, sim. Agora, querida, não dá jeito nenhum”.

A constituição de uma família aparece como um obstáculo para o trabalho, e o trabalho também pode ser visto como um estorvo para a família. Realidades que na sua origem pareciam inseparáveis são vistas neste momento como irreconciliáveis.

O problema não se reduz à perda do sentido da família. A questão está em que se não entendemos o que é uma família, também não entenderemos o sentido profundo que possui o trabalho.

Fomos criados para amar e ser amados. Isto só se realiza no dom sincero de nós mesmos aos outros.

Só com estas premissas claras poderemos entender que o trabalho não é nunca um fim em si mesmo. Não é um âmbito de auto-afirmação ou de auto-desenvolvimento. É – deve ser – um verdadeiro serviço. Um modo de cooperar no bem comum da sociedade, começando pela que temos lá em casa, que se chama família.

É, muitas vezes, a noção do trabalho como “algo meu” – a minha carreira, os meus êxitos, o meu ordenado – que faz “rebentar” a família que tenho lá em casa.

É urgente reconquistar o sentido genuíno do trabalho como “dom de si”: serviço directo ao cônjuge, aos filhos e a toda a sociedade.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Ser Cristo presente entre os homens

Ser Cristo presente entre os homens

Cristo presente entre os homensDeus chama-nos através dos incidentes da vida de cada dia, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas preocupações dos nossos companheiros, nas pequenas coisas da vida familiar.

Deus também nos chama através dos grandes problemas, conflitos e ideais que definem cada época histórica, atraindo o esforço e o entusiasmo de grande parte da Humanidade.

Compreende-se muito bem a impaciência, a angústia, os inquietos anseios daqueles que, com uma alma naturalmente cristã, não se resignam perante a injustiça individual e social que o coração humano é capaz de criar.

Tantos séculos de convivência dos homens entre si, e ainda tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar! Os bens da Terra, repartidos entre muito poucos; os bens da cultura, encerrados em cenáculos…

E, lá fora, fome de pão e de sabedoria; vidas humanas – que são santas, porque vêm de Deus – tratadas como simples coisas, como números de uma estatística! Compreendo e compartilho dessa impaciência, levantando os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pormos em prática o mandamento novo do amor.

Todas as situações que a nossa vida atravessa trazem-nos uma mensagem divina, pedem-nos uma resposta de amor, de entrega aos outros (…).

É preciso reconhecer Cristo que nos sai ao encontro nos nossos irmãos, os homens. Nenhuma vida humana é uma vida isolada; entrelaça-se com as outras. Nenhuma pessoa é um verso solto; todos fazemos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade. Nada há que seja alheio ao interesse de Cristo (…).

Devemos amar o mundo, o trabalho, as realidades humanas. Porque o mundo é bom. Foi o pecado de Adão que desfez a harmonia divina da criação.

Mas Deus Pai enviou o seu Filho unigénito para restabelecer a paz, para que nós, tornados filhos de adopção, pudéssemos libertar a criação da desordem e reconciliar todas as coisas com Deus.

Cada situação humana é irrepetível, fruto de uma vocação única, que se deve viver com intensidade, realizando nela o espírito de Cristo. Assim, vivendo cristãmente entre os nossos iguais, com naturalidade mas de modo coerente com a nossa fé, seremos Cristo presente entre os homens.

S. JOSEMARIA, Cristo que Passa, nn. 110-113.

A decisão mais importante

A decisão mais importante

Qual é a decisão mais importante na vida?
Talvez seja o que é que vamos fazer com ela.
Nós não nos demos a vida. Ela foi-nos entregue. É um presente enigmático e maravilhoso ao mesmo tempo.
Mas, apesar de não nos termos dado a vida, estamos chamados a responder à pergunta (não de um modo teórico, mas profundamente prático): o que é que eu vou fazer com a vida que me foi dada?
E a resolução mais importante parece ser: vou centrar a minha vida em mim ou nos outros?

Claro que um cristão sabe que para centrar a vida nos outros tem antes de a centrar no Outro, que nos deu a vida, e que nos pedirá contas de como a aproveitámos. Esta opção – centrar a vida em nós ou nos outros – é a que mais condicionará o resultado global da nossa fugaz existência.
É a velha dicotomia expressada por Santo Agostinho há mil e seiscentos anos: dois amores diferentes constroem duas cidades diversas. O amor de Deus até à capacidade de dizer não a si próprio: a cidade celestial. O amor próprio desordenado até à triste capacidade de dizer não a Deus e aos outros: a cidade terrena.

Encontrar alguém generoso ao nosso lado pode ser uma óptima ocasião para pensar com calma: há neste mundo pessoas que se sacrificam por Deus e pelos outros. E eu? Que estou a fazer neste mundo? Que faço por Deus? Que faço pelos outros?
Tenho presente que a decisão mais importante da minha vida devo renová-la, uma vez e outra, todos os dias?
Não basta fazer coisas boas. Isso já é algo – mas é pouco. É preciso fazê-las por amor a Deus e ao próximo. Não por egoísmo ou auto-afirmação.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Frustrações

Frustrações – As pessoas, em geral, sentem-se frustradas por duas razões.

A primeira é por não conseguirem atingir o fim que se tinham proposto. Tentaram, esforçaram-se, esmifraram-se, mas não chegaram lá. Isto causa decepção e desilusão – sinónimos de frustração.

A segunda é por conseguirem atingir o fim que se tinham proposto. Tentaram, lutaram, perderam, venceram, mas, no final, chegaram lá. Alcançaram o objectivo cheios de alegria e esperança.

Então, porque surge a frustração?

Porque, ao atingirem esse fim, compreendem que ele não vale tanto quanto esperavam. Ou, pelo menos, não possui aquele valor absoluto com o qual tinham sonhado. É uma decepção diferente – mas não deixa de o ser!

Exemplos deste segundo tipo de desilusão: no dia em que acabar o meu curso, aí sim, serei plenamente feliz. No dia em que me casar. No dia em que tiver um aumento de salário. No dia em que receber um prémio especial.

Porque é que nunca seremos plenamente felizes aqui na Terra?

Porque não fomos criados para isto.

“Criaste-nos, Senhor, para Ti e o nosso coração está inquieto (frustrado) enquanto não repousar em Ti” – já o disse Santo Agostinho há muitos anos atrás. A verdadeira felicidade só a podemos encontrar em Deus – que é o Absoluto que criou o nosso coração.

Acreditar em Deus – no Deus revelado por Jesus Cristo – não é um “recurso” para superar a ignorância. Não é um salto no vazio. Nem é, muito menos, uma mera luz subjectiva.

É a resposta de cada um de nós – pessoal, livre e libertadora – a Deus que Se revela. Resposta que, ao mesmo tempo, nos traz uma luz extraordinária para entender o sentido último da fugaz passagem por este mundo.

A fé é um dom de Deus que muda a nossa vida porque a enche de luz.

E, então, sim, compreendemos perfeitamente o porquê das frustrações: não fomos criados para isto; estamos aqui só de passagem.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

A arte de descansar

Somos seres que necessitam descansar. Esta verdade óbvia está inscrita na nossa natureza. Muitas vezes, surgem dificuldades na vida que não se devem à falta de empenho da nossa parte, mas sim à ausência de um descanso verdadeiramente reparador.

Uma atitude profundamente sábia: saber medir as próprias forças.

Temos de aprender a ler os sinais do cansaço e evitar, na medida do possível, que a corda estique até “perder elasticidade”. Já não digamos nada, o empenho sério que temos de pôr para evitar que ela “rebente”.

É preciso aprender a trabalhar com a sabedoria de não se ficar esgotado. O cansaço excessivo, em geral, deixa sequelas que podem ser difíceis de recuperar.

Como acontece com todas as doenças na vida – e o cansaço pode tornar-se uma doença crónica – a melhor cura é sempre uma sadia prevenção.

Assim como não esperamos que o carro fique sem gasolina para irmos ao posto de abastecimento – se isso acontecesse, o carro não chegaria lá – também não devemos descansar somente quando estivermos “nas lonas”.

Outra atitude sábia: não esquecer que o cansaço não é somente físico, mas, sobretudo, psíquico.

Chama a atenção o modo pouco inteligente de muitos descansarem: não fazerem nada. Deixar-se arrastar pelo mais fácil e imediato, em geral, não costuma ser o melhor modo de descansar.

Descansar é uma arte que é preciso aprender e cultivar. O que descansa a nossa cabeça é sair da rotina do dia a dia. Dedicarmo-nos a tarefas que exigem menos ou outro tipo de esforço e, assim, regressarmos renovados ao nosso trabalho habitual.

Também é fundamental saber defender as horas de repouso. Quantos problemas se resolvem!

Como alguém dizia, “o mais acolhedor neste mundo, depois do seio materno e enquanto não chegarmos à Jerusalém celestial, é mesmo a nossa pequena almofada”.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Compromisso para sempre

O casamento é sempre um chamamento a uma entrega incondicional ao outro por amor. Para o amor ser genuíno, o desejo de entrega tem de ser para sempre: “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida”.

Por esse motivo, é muito importante a preparação prévia para esse compromisso: o namoro. O que está em jogo é tão grande e afecta tanto a felicidade das pessoas que o namoro nunca pode ser uma simples brincadeira sentimental. Isso seria brincar com o fogo e “ter cá uma fezada de que, no meu caso, ele é capaz de não me queimar”. Néscia ilusão que sempre passou factura!

Desde o primeiro momento, é preciso que o namoro seja um verdadeiro caminho de fé.

Necessito conhecer as convicções profundas do outro. Para isso, é necessário muito diálogo e não ter medo de discordar, quando for o caso. Não temos de concordar em tudo. Mas temos de concordar no que é essencial. Senão, a casa virá abaixo, mais cedo ou mais tarde.

E, atenção: é muito enganador “resolver” as discórdias recorrendo a manifestações de carinho! Como se elas fossem uma varinha mágica capaz de fazer desaparecer os problemas. Eles só desaparecem na aparência.

As convicções profundas do outro adequam-se ao que eu penso que deve ser o pai ou a mãe dos meus futuros filhos?

Não?

Então, é prudente terminar o namoro.

Vai doer?

É muito mais salutar e sábio que doa agora – dói menos! – do que depois.

Mais: até diria que é necessário conhecer algumas convicções profundas do outro antes de decidir-se a começar o namoro.

Temos a mesma ideia sobre o que é o amor? Essa ideia corresponde à verdade? Captamos a relação que existe entre o amor, o compromisso e a entrega?

Como alguém dizia, para uns o amor é romanticismo, para outros é sexo. Para nós, cristãos, é entrega: compromisso para sempre!

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Egocentrismo

Qualquer pessoa franca sabe que necessita de melhorar constantemente o seu carácter. É uma tarefa árdua. Requer um conhecimento próprio objectivo — “ciência” que é a mais complicada de aprender.

Além disso, é necessário ter abundante paciência e um profundo espírito desportivo, uma vez que melhorar o nosso carácter tem um “prazo de validade” que se identifica com a nossa vida.

Só no fim da existência, se soubermos corresponder com generosidade à acção da graça de Deus em nós, seremos aquilo que estamos chamados a ser: “perfeitos”. Numa linguagem cristã diz-se “santos”. Somente nessa ocasião teremos um carácter plenamente humano, à imagem do modelo por excelência que é Jesus Cristo.

Sabendo tudo isto, surge naturalmente a pergunta: qual é o modo mais eficaz de aperfeiçoar o nosso carácter?

Existem várias respostas, todas elas muito válidas. No entanto, gostaria de sublinhar uma que me parece fundamental: ninguém melhora o seu carácter se não se esforça por vencer uma tendência inata que todos possuímos: o egocentrismo.

Seremos muito mais humanos se nos esforçarmos de verdade por não estar centrados em nós mesmos. Se percebermos que é um erro crasso viver como se fôssemos o centro do Universo.

E, muitas vezes, o nosso mundo interior descontrolado — pensamentos, imagens, recordações — tende a dificultar muito a tarefa de superar o egocentrismo. Quem se preocupa somente consigo mesmo não consegue viver uma vida plenamente humana.

O activismo, com muita frequência, manifesta egocentrismo. Uma pessoa deve trabalhar muito e bem — mas não pode utilizar os seus deveres como uma desculpa para não prestar atenção aos outros.

Saber ser felizes é um factor fundamental da nossa existência. Mesmo que pareça paradoxal, convém meditar que não há verdadeira felicidade nesta Terra sem algum tipo de renúncia. E uma renúncia indispensável para se ser feliz é o esforço sincero por superar o egocentrismo.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Felicidade

Todos nós desejamos ser felizes. É algo normal, espontâneo e evidente. E também o é a noção de que a felicidade depende, em parte, do nosso esforço e empenho.
No entanto, convém acrescentar que existe um perigo real de nos
obcecarmos com o desejo de “ser felizes”. Isso não é nunca positivo, porque, ao ser uma atitude exagerada, nos faz precisamente perder aquilo que buscamos com tanta determinação.
Se procurarmos com demasiada decisão a serenidade, a paz e até a própria felicidade, podemos não as alcançar nunca. Isso porque todos estes bens — que qualquer um de nós deseja — não são fins em si mesmos. São efeitos de uma vida vivida em plenitude.
Para se ser feliz, não é solução repetir-se constantemente a si próprio: “Tenho de ser feliz”. Tenho, isso sim, de encontrar um motivo que me faça feliz, que me ajude a manter a serenidade diante das inevitáveis contrariedades.
E esse motivo encontra-se para lá da própria felicidade.
Por isso, devemos procurar metas fora de nós mesmos, pondo em
movimento uma das maiores capacidades que temos pelo facto de sermos seres espirituais: a capacidade de nos autotranscendermos.
Em que consiste essa capacidade?
Em podermos dirigir-nos para fora de nós mesmos. Afinal, como diz o famoso aforismo, “a porta da felicidade abre-se para fora”.
Assim como não tem sentido atirar uma flecha sem apontar para um alvo, também não tem sentido que a nossa vida careça de uma meta para a qual nos dirigimos. Quando alguém põe a meta em si mesmo, não só não encontra a felicidade como, de algum modo, desistiu de a alcançar.
Pelo contrário, quando uma pessoa encontra o sentido da sua vida e
procura que ele influencie o seu actuar, descobre a verdadeira felicidade, porque “caminha para ela”. É esse caminhar, que inclui renúncias, que o faz verdadeiramente feliz.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Em torno da fé, do amor e da esperança gira toda a vida cristã

Viver da fé: estas palavras que foram, mais tarde, tema frequente de meditação para o apóstolo S. Paulo, vêem-se realizadas superabundantemente em S. José. O seu cumprimento da vontade de Deus não é rotineiro nem formalista, mas espontâneo
e profundo. (…)
A história do Santo Patriarca foi uma vida simples, mas não uma vida fácil. Depois de momentos angustiosos, sabe que o Filho de Maria foi concebido por obra do Espírito Santo. E esse Menino, Filho de Deus, descendente de David segundo a carne, nasce numa gruta. Os anjos celebram o seu nascimento e personalidades de terras longínquas
vêm adorá-Lo, mas o rei da Judeia deseja a sua morte e é necessário fugir. O Filho de Deus é um menino aparentemente indefeso que terá de viver no Egipto.
S. Mateus, ao narrar estas cenas no seu Evangelho, põe constantemente em destaque a fidelidade de José, que cumpre sem vacilações os mandatos de Deus, embora por vezes o sentido desses mandatos lhe possa parecer obscuro ou se lhe oculte a sua conexão com o resto dos planos divinos. (…)
A fé de José não vacila, a sua obediência é sempre estrita e rápida. Para compreender melhor esta lição que aqui nos dá o Santo Patriarca, é bom que consideremos que a sua fé é activa e que a sua obediência não se parece com a obediência de quem se deixa arrastar pelos acontecimentos. Porque a fé cristã é o que há de mais oposto ao conformismo ou à falta de actividade e de energia interiores.
José abandonou-se sem reservas nas mãos de Deus, mas nunca deixou de reflectir sobre os acontecimentos, e assim recebeu do Senhor a inteligência das obras de Deus, que é a verdadeira sabedoria.
Deste modo, aprendeu a pouco e pouco que os planos sobrenaturais têm uma coerência divina, que às vezes está em contradição com os planos humanos.
Nas diversas circunstâncias da sua vida, o Patriarca não renuncia a pensar, nem se alheia da sua responsabilidade. Pelo contrário: põe toda a sua experiência humana ao serviço da fé. Quando volta do Egipto, ouvindo que Arquelau reinava na Judeia em vez de seu pai Herodes, temeu ir para lá. Aprendeu a mover-se dentro dos planos divinos e, como confirmação de que Deus quer o que ele pressentia, recebe a indicação de se retirar para a Galileia.
Assim foi a fé de S. José: plena, confiante, íntegra, manifestando-se numa entrega real à vontade de Deus, numa obediência inteligente. E, com a Fé, a Caridade, o Amor. A sua fé funde-se com o amor: com o amor de Deus, que estava a cumprir as promessas feitas a Abraão, a Jacob, a Moisés; com o carinho de esposo para com Maria e com o carinho de pai para com Jesus. Fé e amor da esperança da grande missão que Deus, servindo-se também dele – um carpinteiro da Galileia – estava a começar no mundo: a redenção dos homens. (…)
Fé, amor, esperança: estes são os eixos em torno dos quais gira a vida de São José e toda a vida cristã.

São Josemaria, Cristo que Passa, nn. 41-43.

Ao convencermo-nos de que Deus nos ouve…

Ao convencermo-nos de que Deus nos ouve, de que está sempre solícito por nós, encher-se-á de paz o nosso coração.

Entramos no tempo da Quaresma: tempo de penitência, de purificação, de conversão. Não é tarefa fácil. O cristianismo não é um caminho cómodo, não basta estar na Igreja e deixar que os anos passem (…). É preciso manter a alma jovem, invocar o Senhor, saber ouvir, descobrir o que corre mal, pedir perdão, para facilitarmos o trabalho da graça divina nessas sucessivas conversões.
Invocabit me et ego exaudiam eum, lemos na liturgia do 1o Domingo da Quaresma: Se me chamardes, Eu vos escutarei, diz o Senhor. Reparai nesta maravilha que é o cuidado que Deus tem por nós, sempre disposto a ouvir-nos, atento em cada momento à palavra do homem. Em qualquer altura – mas agora de modo especial, porque o nosso coração está bem disposto, decidido a purificar-se – Ele nos ouve e não deixará de atender ao que Lhe pede um coração contrito e humilhado.
O Senhor ouve-nos para intervir, para Se meter na nossa vida, para nos livrar do mal e encher-nos de bem: eripiam eum et glorificabo eum, Eu o livrarei e o glorificarei, diz do homem. Portanto: esperança do Céu. E aqui temos, como doutras vezes, o começo desse movimento interior que é a vida espiritual. A esperança da glorificação acentua a nossa fé e estimula a nossa caridade. E, deste modo, as três virtudes teologais – virtudes divinas que nos assemelham ao nosso Pai, Deus – põem-se em movimento.
Haverá melhor maneira de começar a Quaresma? Renovamos a Fé, a
Esperança e a Caridade. Esta é a fonte do espírito de penitência, do desejo de purificação. A Quaresma não é apenas uma ocasião de intensificar as nossas práticas externas de mortificação; se pensássemos que era apenas isso, escapar-nos-ia o seu sentido profundo na vida cristã, porque esses actos externos são, repito, fruto da Fé, da Esperança e do Amor.
Habitar sob a protecção de Deus, viver com Deus: eis a arriscada segurança do cristão. É necessário convencermo-nos de que Deus nos ouve, de que está sempre solícito por nós, e assim se encherá de paz o nosso coração. Mas viver com Deus é indubitavelmente correr um risco, porque o Senhor não Se contenta compartilhando, quer tudo. E aproximar-se d’Ele um pouco mais significa estar disposto a uma nova rectificação, a escutar mais atentamente as suas inspirações, os santos desejos que faz brotar na nossa alma, e a pô-los em prática.

São Josemaria, Cristo que Passa, nn. 57-58.