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Jantar juntos

Jantar juntos
Jantar juntos

Um estudo recente, feito no Canadá e citado por Leonard Sax num dos seus livros, chegou à conclusão de que a preocupação dos pais de jantarem habitualmente com os seus filhos possui uma enorme importância na educação.

No entanto, o estudo específica o que significa “jantar com os

filhos”. Não significa, simplesmente, comer juntos à mesma mesa e no mesmo horário. Isto é necessário, mas não é suficiente.

Jantar com os filhos, para este estudo, significa também ter a televisão desligada e não permitir o uso de telemóveis enquanto se está na refeição.

Algumas conclusões desse estudo: os filhos que jantam habitualmente com os seus pais são menos propícios a padecer problemas como sentirem-se tristes, ansiosos ou sozinhos. E são mais propícios a ajudar os outros e a mostrarem-se satisfeitos com as suas vidas.

É claro que jantar juntos não resolve todos os problemas da educação. Mas é evidente que ajuda os pais a dedicarem um tempo concreto a falar com os seus filhos, a ajudá-los a saberem comportar-se, a saberem ouvir os outros, a saberem falar do que lhes aconteceu nesse dia, a não terem caprichos na comida etc.

Se o tempo em família é o principal momento do dia para os pais – e é difícil que o seja se não têm a preocupação de jantarem juntos – é muito mais provável que os pais saibam o que acontece com os seus filhos.

Assim, se a escola enviar uma informação a dizer que o teu filho se portou mal, por favor, não vás a correr ao psiquiatra. Pergunta o que aconteceu. Fala com o professor. Faz tudo o que estiver na tua mão para ensinar o teu filho a respeitar boas normas de conduta. Recorda que tu és o primeiro responsável – não é o professor, nem é o psiquiatra – por inculcar essas boas normas ao teu filho, começando lá em casa às refeições.

Se não tens tempo para jantar com os teus filhos, é muito difícil que o faças. É o que diz o estudo. Mas, mesmo que não o dissesse, parece óbvio, não é?

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Namoro e fé

Namoro e fé

Qual é o sinal de que um namoro se vive de um modo cristão?

Talvez existam muitos sinais. No entanto, há um que me parece de especial importância: que o amor mútuo ajude cada um deles a estar mais perto de Deus. Que o namoro alimente de verdade a sua fé, por ser vivido de acordo com ela.

Hoje em dia, confunde-se com muita facilidade “ter fé” com “viver de fé”.

Para namorar de um modo cristão não basta encontrar uma pessoa que diga que tem fé. E ainda menos se essa pessoa afirma que tem fé, mas não a pratica. É uma “fé teórica” – o que na prática é o mesmo que dizer que ela ou não existe ou está morta.

É preciso encontrar alguém que “viva de fé”. Que a fé que diz ter influencie realmente o seu modo de actuar. Também, como é lógico, o seu modo de namorar e de entender o casamento – meta para a qual tende todo o namoro que se diz cristão.

Ora, o namoro é um momento crucial na vida de uma pessoa em que a sua fé é posta à prova.

Porque é que isto é assim?

Porque namorar de acordo com a verdade exige um esforço real para não se deixar arrastar pelas tendências desordenadas do coração humano.

Os cristãos genuínos vivem “na carne”, mas não vivem “segundo a carne”, como diz São Paulo. Viver um namoro de um modo cristão é viver um amor autêntico, verdadeiro, honrado e sincero. As palavras são bonitas, mas exigem um esforço real. Para quem ama de verdade, esse esforço vale sempre a pena.

Resumindo: o esforço por viver um namoro de um modo cristão põe à prova o peso real que a fé possui na vida de uma pessoa.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

O sentido genuíno do trabalho

O sentido genuíno do trabalho

Um dos problemas mais “espinhosos” da actualidade é a conciliação entre trabalho e família. Parece um dilema profundo de difícil resolução.

Para as mulheres esse dilema pode-se expressar mais ou menos assim: “Ou trabalhas ou tens filhos. Ou te dedicas à tua carreira profissional ou cuidas do teu lar”.

Para os homens o mesmo dilema costuma ter outras “tonalidades”: “Ter filhos agora complica a nossa carreira profissional. Isso seria um transtorno para o nosso casamento. Quando tudo estiver estável economicamente, então, sim. Agora, querida, não dá jeito nenhum”.

A constituição de uma família aparece como um obstáculo para o trabalho, e o trabalho também pode ser visto como um estorvo para a família. Realidades que na sua origem pareciam inseparáveis são vistas neste momento como irreconciliáveis.

O problema não se reduz à perda do sentido da família. A questão está em que se não entendemos o que é uma família, também não entenderemos o sentido profundo que possui o trabalho.

Fomos criados para amar e ser amados. Isto só se realiza no dom sincero de nós mesmos aos outros.

Só com estas premissas claras poderemos entender que o trabalho não é nunca um fim em si mesmo. Não é um âmbito de auto-afirmação ou de auto-desenvolvimento. É – deve ser – um verdadeiro serviço. Um modo de cooperar no bem comum da sociedade, começando pela que temos lá em casa, que se chama família.

É, muitas vezes, a noção do trabalho como “algo meu” – a minha carreira, os meus êxitos, o meu ordenado – que faz “rebentar” a família que tenho lá em casa.

É urgente reconquistar o sentido genuíno do trabalho como “dom de si”: serviço directo ao cônjuge, aos filhos e a toda a sociedade.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

A decisão mais importante

A decisão mais importante

Qual é a decisão mais importante na vida?
Talvez seja o que é que vamos fazer com ela.
Nós não nos demos a vida. Ela foi-nos entregue. É um presente enigmático e maravilhoso ao mesmo tempo.
Mas, apesar de não nos termos dado a vida, estamos chamados a responder à pergunta (não de um modo teórico, mas profundamente prático): o que é que eu vou fazer com a vida que me foi dada?
E a resolução mais importante parece ser: vou centrar a minha vida em mim ou nos outros?

Claro que um cristão sabe que para centrar a vida nos outros tem antes de a centrar no Outro, que nos deu a vida, e que nos pedirá contas de como a aproveitámos. Esta opção – centrar a vida em nós ou nos outros – é a que mais condicionará o resultado

A decisão mais importante
A decisão mais importante

global da nossa fugaz existência.

É a velha dicotomia expressada por Santo Agostinho há mil e seiscentos anos: dois amores diferentes constroem duas cidades diversas. O amor de Deus até à capacidade de dizer não a si próprio: a cidade celestial. O amor próprio desordenado até à triste capacidade de dizer não a Deus e aos outros: a cidade terrena.

Encontrar alguém generoso ao nosso lado pode ser uma óptima ocasião para pensar com calma: há neste mundo pessoas que se sacrificam por Deus e pelos outros. E eu? Que estou a fazer neste mundo? Que faço por Deus? Que faço pelos outros?
Tenho presente que a decisão mais importante da minha vida devo renová-la, uma vez e outra, todos os dias?
Não basta fazer coisas boas. Isso já é algo – mas é pouco. É preciso fazê-las por amor a Deus e ao próximo. Não por egoísmo ou auto-afirmação.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Frustrações

Frustrações – As pessoas, em geral, sentem-se frustradas por duas razões.

A primeira é por não conseguirem atingir o fim que se tinham proposto. Tentaram, esforçaram-se, esmifraram-se, mas não chegaram lá. Isto causa decepção e desilusão – sinónimos de frustração.

A segunda é por conseguirem atingir o fim que se tinham proposto.

Tentaram, lutaram, perderam, venceram, mas, no final, chegaram lá.

frustrações

Alcançaram o objectivo cheios de alegria e esperança.

Então, porque surge a frustração?

Porque, ao atingirem esse fim, compreendem que ele não vale tanto quanto esperavam. Ou, pelo menos, não possui aquele valor absoluto com o qual tinham sonhado. É uma decepção diferente – mas não deixa de o ser!

Exemplos deste segundo tipo de desilusão: no dia em que acabar o meu curso, aí sim, serei plenamente feliz. No dia em que me casar. No dia em que tiver um aumento de salário. No dia em que receber um prémio especial.

Porque é que nunca seremos plenamente felizes aqui na Terra?

Porque não fomos criados para isto.

“Criaste-nos, Senhor, para Ti e o nosso coração está inquieto (frustrado) enquanto não repousar em Ti” – já o disse Santo Agostinho há muitos anos atrás. A verdadeira felicidade só a podemos encontrar em Deus – que é o Absoluto que criou o nosso coração.

Acreditar em Deus – no Deus revelado por Jesus Cristo – não é um “recurso” para superar a ignorância. Não é um salto no vazio. Nem é, muito menos, uma mera luz subjectiva.

É a resposta de cada um de nós – pessoal, livre e libertadora – a Deus que Se revela. Resposta que, ao mesmo tempo, nos traz uma luz extraordinária para entender o sentido último da fugaz passagem por este mundo.

A fé é um dom de Deus que muda a nossa vida porque a enche de luz.

E, então, sim, compreendemos perfeitamente o porquê das frustrações: não fomos criados para isto; estamos aqui só de passagem.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria